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Baixo rendimento escolar pode ter relação com problemas na respiração durante o sono

Aldair dos Santos

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Ortodontia, pediatria e odontopediatria se unem para explicar como sono de má qualidade pode afetar diretamente o aprendizado de crianças e adolescentes.

Dificuldade de concentração, irritabilidade, queda no desempenho escolar. Cada vez mais comuns na infância, esses sinais costumam ser associados a fatores comportamentais, excesso de telas ou até transtornos como TDAH. Mas um fator silencioso, e muitas vezes ignorado, pode estar na origem de tudo: a forma como a criança respira e dorme.

Especialistas alertam que alterações na estrutura da face e da arcada dentária podem comprometer a respiração durante o sono e, consequentemente, impactar diretamente o aprendizado.

De acordo com o ortodontista Dr. Christian R. Lemes, problemas como céu da boca estreito ou mandíbula posicionada para trás reduzem o espaço para a passagem do ar, provocando microdespertares ao longo da noite. “Essa fragmentação impede que a criança atinja o sono profundo, que é essencial para a consolidação da memória e para o foco no dia seguinte”, explica.

A respiração bucal, bastante comum na infância, agrava esse cenário. Ao contrário da respiração nasal, ela é menos eficiente na oxigenação do organismo e altera a dinâmica das vias aéreas. “Sem sono profundo, o cérebro não consegue fixar o que foi aprendido. Isso afeta diretamente o desempenho escolar”, completa.

Quando o comportamento engana
Na prática clínica, os impactos vão além da aprendizagem. Crianças que dormem mal tendem a apresentar irritabilidade, impulsividade e dificuldade de concentração, sinais frequentemente confundidos com transtornos de atenção.

“A privação de sono em crianças não causa sonolência como em nós, adultos. Muitas vezes, ela gera uma hiperatividade paradoxal. A criança fica agitada para tentar se manter acordada”, explica o ortodontista.

A pediatra Dra. Camila Esteves da Rocha reforça que o sono precisa ser parte central da investigação. “O sono é o momento em que o cérebro organiza memória, linguagem e emoções. Sem qualidade de sono, o rendimento escolar naturalmente cai”, afirma.

Ela destaca que cerca de 30% das crianças apresentam algum tipo de alteração no sono, um número significativo e ainda subestimado.

O alerta que muitos pais ignoram
Um dos principais sinais de que algo não vai bem pode estar dentro de casa, e durante a noite. “Roncar não é normal. Não é sinal de sono profundo, é sinal de esforço respiratório”, alerta a pediatra.

Crianças que dormem de boca aberta, roncam, babam no travesseiro ou acordam cansadas podem estar enfrentando dificuldades para respirar corretamente durante o sono. Além disso, comportamentos como irritabilidade, dificuldade para acordar e desatenção na escola também acendem o sinal de alerta.

“Muitos pais acreditam que é apenas uma rinite ou algo passageiro, mas a respiração bucal crônica pode alterar o crescimento da face”, completa.

Uma cadeia de impactos
Na odontopediatria, essa relação aparece com frequência. Segundo a odontopediatra Dra. Patrícia Naves, problemas de mordida, como mordida aberta ou cruzada, estão frequentemente associados a dificuldades de sono e aprendizagem.

“É uma cascata. A criança não respira bem, dorme mal, o cérebro não descansa e isso impacta diretamente na cognição e no desenvolvimento”, explica.

Ela ressalta que muitos pais procuram atendimento por sinais como bruxismo ou dificuldade escolar, mas, ao investigar o histórico, surgem outros fatores associados, como sono ruim, hiperatividade e alterações respiratórias.

Além disso, hábitos modernos também entram na equação. “O excesso de telas deixa o cérebro em estado constante de alerta, piora a qualidade do sono e influencia diretamente no comportamento e na capacidade de aprendizado”, destaca.

Estrutura, função e saúde: um olhar integrado
O consenso entre os especialistas é que o problema raramente tem uma única causa. Alterações estruturais da face, hábitos, ambiente familiar e qualidade do sono se conectam e exigem um olhar integrado.

“A respiração oral na infância impacta diretamente o crescimento ósseo. Por isso, o pediatra precisa trabalhar em conjunto com a odontologia para encaminhar no momento certo”, afirma a Dra. Camila.

Já o ortodontista destaca que o tratamento vai além do alinhamento dos dentes. “Quando expandimos o céu da boca, por exemplo, aumentamos também o espaço para a passagem do ar. Isso melhora a respiração, o sono e, consequentemente, a qualidade de vida da criança”, explica.

A atuação conjunta com fonoaudiólogos também é fundamental para reeducar a musculatura e garantir que a respiração nasal seja mantida ao longo do tempo.

Diagnóstico precoce faz diferença
A boa notícia é que, quando identificado precocemente, o problema pode ser tratado de forma menos invasiva e com impactos significativos no desenvolvimento da criança. “O maior erro é esperar. Quanto mais cedo identificamos, mais simples e eficaz é o tratamento”, reforça Dr. Christian.

Para os especialistas, o principal recado para os pais é observar além do comportamento e do boletim escolar. “Se a criança não está rendendo bem, é preciso olhar para o todo: como ela dorme, como respira, como vive. Muitas vezes, o problema não está na sala de aula e sim na qualidade do sono”, conclui a pediatra Dra. Camila.

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