O contador Tarcísio Rocha da Silva disse que criminosos utilizam dados e fotos para aplicarem golpes ligados à compra e venda de veículos. Ele identificou golpes em Goiás, São Paulo e Santa Catarina, e se tornou réu em processo em Rondônia por negociação que diz não ter realizado.
O contador de Uberlândia Tarcísio Rocha da Silva, de 40 anos, afirma que pelo menos uma pessoa está se passando por ele para aplicar golpes em vários estados brasileiros. Segundo o empresário, a situação começou após ter sido vítima de tentativa de golpe registrada em janeiro durante venda de um veículo.
Segundo o contador, o golpista estaria usando fotos e dados da Carteira Nacional de Habilitação (CNH) dele para negociar a compra e venda de carros com valores diferentes do praticado no mercado. O empresário diz ter identificado tentativas de golpes nos estados de Goiás, São Paulo e Santa Catarina e se tornou réu em um processo em Rondônia por negociação que afirma não ter realizado.
O G1 conversou com a defesa de Tarcísio. Veja também como evitar crimes pela internet, de acordo com o delegado da Polícia Civil, Marcos Tadeu de Brito Brandão.
Primeiro golpe
De acordo com o boletim de ocorrência registrado por Tarcísio Rocha no dia 22 de março, o primeiro golpe ocorreu em janeiro de 2021 quando publicou anúncio de venda de uma caminhonete em um site de vendas. Em 13 de janeiro, ele recebeu uma mensagem via aplicativo WhatsApp de uma pessoa que se apresentou como Ênio, morava em Patos de Minas e se mostrou interessado na compra do veículo.
O suposto comprador solicitou fotos da caminhonete e mais informações sobre ela. As negociações avançaram e “Ênio” encaminhou a cópia da Carteira Nacional de Habilitação e solicitou uma cópia da CNH do contador para que a negociação ficasse mais transparente.
Tarcísio também afirmou que antes de compartilhar o documento, questionou conhecidos em Patos de Minas, que informaram que o suposto comprador era uma pessoa honesta e confiável. Com o negócio fechado, um encontro entre o empresário e um amigo do comprador foi agendado para o dia 15 de janeiro, mas ninguém compareceu. Outro encontro foi marcado para o dia 18 e mais uma vez ninguém apareceu.
Ainda segundo a ocorrência, as conversas entre os dois continuaram até o início de fevereiro, quando o contador informou o suposto comprador que não realizaria mais o negócio. O verdadeiro Ênio entrou em contato com Tarcísio dizendo que também tinha sido vítima de um golpe e não era ele que estava negociando a compra do veículo.
“No dia 5 de fevereiro, um senhor de Patos de Minas encontrou meu contato e me informou que alguém estava se passando por ele como comprador da caminhonete, utilizando seu nome em um telefone que não era dele”, disse Rocha.Segundo golpe
Tarcísio contou que a partir das informações pessoais obtidas por meio da CNH, pelo menos uma pessoa tentou aplicar golpes nos estados de São Paulo, Santa Catarina e Goiás. No entanto, de acordo com a advogada da vítima, Ana Carolina Mundim, a defesa trabalha com a possibilidade de envolvimento de mais de uma pessoa, devido às tentativas de golpes ocorrerem em estados distintos e distantes.
“Trabalhamos com a hipótese de vários autores, pois o golpe foi aplicado em vários estados. Como uma pessoa só compraria chips diferentes em estados distintos?”, disse a advogada.Apesar de os golpes em São Paulo, Santa Catarina e Goiás não terem sido concretizados, o crime foi cometido em Vilhena-RO. No Norte do país, uma empresa vendeu um veículo para uma pessoa que se apresentava no WhatsApp como Tarcísio e utilizava no perfil a foto do empresário uberlandense.
Segundo Tarcísio, o estelionatário enviou um comprovante falso e o vendedor realizou a entrega do carro para uma pessoa envolvida no golpe, que logo em seguida o vendeu para uma garagem. Ao descobrir que o comprovante era falso, o proprietário da empresa foi até uma garagem onde o veículo estava para ser revendido e o solicitou de volta.
Como consequência, o vendedor do veículo entrou com processo judicial contra o contador mineiro para reaver o prejuízo causado. O processo está em andamento na Justiça de Rondônia, sendo que os advogados de Tarcísio apresentaram a defesa com as provas de que não foi ele o autor do golpe e aguardam parecer do juiz sobre o caso.
“Em Vilhena, acusaram o Tarcísio como autor do crime, sendo que não foi ele. O golpista solicitou que o pagamento fosse feito em uma conta de terceiros. São muitas pessoas envolvidas e citadas durante a autoria do golpe”, afirmou Ana Carolina Mundim.
Processo
Para evitar novos golpes, a defesa de Tarcísio Rocha está realizando o levantamento de provas para abertura do inquérito policial e posterior processo judicial. Até o momento, o empresário conseguiu o bloqueio de alguns números telefônicos utilizados nas tentativas de golpe.
Ele realizou o registro de boletim de ocorrência tanto do primeiro quanto do segundo golpe, mas segundo a Polícia Civil, ainda não realizou a representação para abertura de inquérito policial.
“A primeira coisa a se fazer é procurar a polícia e registrar a ocorrência e prestar todas as informações necessárias para a investigação. No momento do registro, a vítima precisa afirmar que quer representar pela instauração de inquérito policial para apurar a autoria do delito. Se não houver o termo de representação, nada pode ser feito. Esse termo é uma questão essencial para a ação penal”, afirmou o delegado Marcos Tadeu de Brito Brandão.
De acordo com a advogada de Tarcísio, a representação não foi realizada ainda, pois houve uma mudança na lei referente ao crime de estelionato, que garante às vítimas prazo de seis meses a partir do momento de identificação do autor para que a representação seja feita. Assim, a defesa busca provas para identificar os autores dos crimes para dar prosseguimento ao processo.
“Ele pode fazer essa representação agora, mas a investigação ficará comprometida, pois não tem como localizar o autor. Estamos em processo antecipado de produção de provas. Primeiro queremos identificar a autoria para já apresentá-la na representação e darmos prosseguimento do inquérito”, concluiu Ana Carolina Mundim.Como evitar golpes?
Conforme o delegado Marcos Tadeu de Brito Brandão, o passo mais importante para evitar esse tipo de golpe é não compartilhar dados pela internet, telefone ou para pessoas desconhecidas. No caso de Tarcísio, o erro foi compartilhar a Carteira Nacional de Habilitação pelo aplicativo de mensagens.
“Não há a necessidade de compartilhar esse documento para formalizar a venda de um veículo. Não se deve e nem é preciso compartilhar esses dados para concluir uma transação como essa”, disse o delegado.Ainda segundo Brandão, esses golpes pela internet aumentaram em todo o país. A responsável pelo crescimento foi a pandemia de Covid-19, que resultou na migração dos crimes patrimoniais para os virtuais, principalmente, estelionatos.
“O que era roubo ou furto, está perdendo espaço para o estelionato. Esse crime vai desde contatos falsos de bancos, no qual o criminoso liga para a vítima afirmando que receberam a informação da tentativa de compra em determinada loja, mas que está ocorrendo um erro. Obviamente, a pessoa vai dizer que não e aí o criminoso pede dados do cartão e da vítima”, acrescentou.
Outra dica para evitar golpes pela internet é sempre buscar sites conhecidos e confiáveis para a comercialização de produtos, seja para compra ou venda. Também é preciso ficar atento ao cadastro do endereço do site.
“Sempre buscar sites confiáveis, principalmente se atentar ao endereço. Se o final do endereço tiver o ‘.com.br’, a chance de cair em golpe diminui”, concluiu Brandão.
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