Para o governo francês o Brasil figura entre os países na chamada zona vermelha, a mais perigosa em relação à Covid-19. Viagem é essencial para continuidade das pesquisas.
Estudantes e pesquisadores da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) esperam permissão para viajarem para a França e continuarem as pesquisas. A viagem é essencial para a continuidade dos estudos, mas na classificação do governo francês o Brasil está na chamada zona vermelha da pandemia de Covid-19, a mais perigosa em relação à doença.
Desde o dia 23 de abril a embaixada da França deixou de emitir vistos a estudantes e pesquisadores brasileiros. No dia 9 de junho, a França chegou a flexibilizar a entrada de alguns países, mas o Brasil não está nesta lista. Enquanto isso, pesquisas importantes para a população ficam paradas e brasileiros que conseguiram vagas em universidades francesas perdem prazos, o que pode acarretar na perda de bolsas ou mesmo das vagas.
Pesquisa parada
Uma das pesquisas em jogo é do Núcleo de Inovação e Avaliação Tecnológica em Saúde (Niats) da UFU, que tenta criar um jogo para ajudar na reabilitação de pacientes com Parkinson. A pesquisa envolve quatro alunos de pós-graduação da UFU e seis professores da instituição, que trabalham em parceria com outros quatro professores da Universidade de Lorraine, na França.
O objetivo da pesquisa é melhorar a capacidade de movimento dos pacientes de Parkinson através da repetição de movimentos durante o ato de jogar.
“As pessoas com Parkinson têm muita dificuldade de realizar tarefas normais do dia a dia. Então escovar o dente, pegar um copo as vezes é difícil. E a gente está trabalhando nessa linha, para dar qualidade de vida para essas pessoas. ”, explicou a pós-doutoranda em engenharia biomédica Isabela Alves Marques.
O projeto teve início em 2019 e a previsão é de que ainda leve cerca de três anos para ser finalizado. No entanto, para que isso aconteça, os pesquisadores precisam ir até a França, onde serão desenvolvidos os sensores para captação de movimento dos pacientes. Isabela tem uma bolsa com validade de 12 meses. Ela e uma outra pesquisadora deveriam começar os estudos na França no dia 1º de setembro, mas tudo ainda é incerto.
“Não ter um posicionamento do consulado francês é muito frustrante, já que a gente já tem as cartas, já tem o esforço inicial para conseguir isso, que não é fácil. A gente já tem o esforço dos professores da França, da Universidade de Lorraine, que já fizeram o convite e passaram toda a documentação para a gente. ”
Perda de bolsas e vagas
Matheus Lopes Silva está no sétimo período do curso de Engenharia Aeronáutica da UFU e conseguiu uma bolsa para concluir os últimos dois anos do curso na França. Se conseguir completar os estudos no território francês, ele volta ao Brasil para finalizar algumas matérias e fica com dupla diplomação.
No entanto, com a restrição, ele teme perder a bolsa. “Ao mesmo tempo que eu não sei se eu vou, eu não posso fazer mais nada aqui, até porque eu estou impedido até receber resposta da universidade e do visto, se eu vou poder ir, se eu vou conseguir chegar lá.”, desabafou ele.
Outra pessoa que sofre com isso é Ana Laura Berger Cokely. O marido vive na França desde fevereiro e ela esperava que estes fossem os últimos passos na UFU antes de ir embora para lá com ele. Segundo ela, ele só aceitou a proposta de emprego na Europa porque tinha certeza de que ela iria também. Além do marido, a engenheira civil já foi aceita para dois mestrados na França.
“É extremamente agoniante! É um grande investimento emocional! Um grande investimento financeira também para eu me inscrever nas escolas, para conseguir os mestrados. É muito triste. A gente se sente sem ter o que fazer. ”, lamentou a estudante.
Luta nacional
Além dos alunos da UFU, o problema afeta pessoas de todo o Brasil. Por isso, alguns deles se uniram e criaram uma campanha nas redes sociais com a hashtag #etudierestimpérieux (“estudar é imperioso”, em francês). O nome é resposta à justificativa do governo francês para não deixá-los entrar.
O grupo já reúne mais de 350 brasileiros que passaram em exames e processos seletivos em universidades na França. Eles pretendem chamar a atenção do governo francês e já mandaram até uma carta ao país, pedindo a liberação.
“O intuito é unir esforços de todos estudantes que estão nessa mesma situação, para poder chamar a atenção do consulado francês aqui no Brasil e também de membros maiores na França” explicou a doutoranda em engenharia biomédica Camille Marques Alves.
Instituições brasileiras
Em nota a UFU informou que segundo o calendário do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), as viagens de pesquisadores brasileiros a países conveniados estão suspensas até setembro deste ano devido à pandemia.
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