Funcionária do TRT afirma que foi assediada dentro do gabinete de Marcos Scalercio em 2018 e que chegou a ficar com marcas nos braços por ter sido pressionada pelo juiz. Outra vítima relata que passou a sofrer retaliações em audiências depois de ter se negado a sair com o juiz.
Duas das três mulheres que decidiram levar à frente na Justiça as denúncias de assédio sexual contra o juiz do trabalho de São Paulo e professor Marcos Scalercio relataram ao g1 e à TV Globo detalhes da abordagem.
Uma delas afirmou ter sido impedida de fazer perguntas por Scalercio durante uma audiência por não ter aceitado sair com ele. A advogada diz que era aluna dele no cursinho Damásio em 2014, onde Scalercio dava aulas, e que foi abordada por ele em redes sociais.
O professor começou a oferecer ajuda a ela. "Ele ficava falando de me levar livros até a minha faculdade e um dia simplesmente apareceu. Entrei no carro dele e nós fomos numa cafeteria próxima ao local, quando ele tentou me agarrar", afirmou.
"Na hora, eu falei que não queria isso, fiquei assustada e me retirei daquele local. Depois ele passou a mandar mensagens nas redes sociais dizendo que a gente tinha que sair juntos. Eu me recusava, e ele falava coisas do tipo: 'Como você não quer sair comigo, eu sou juiz, você não tem noção de quem eu sou?'. Depois disso, eu bloquei ele nas redes", completou.
A advogada conta que continuou frequentando as aulas normalmente, e que Scalercio passou a tratá-la com indiferença. Depois de formada, ela afirma que o encontrou em audiências e que teria sofrido retaliações profissionais por parte do juiz.
"Eu estava numa audiência que deveria ocorrer normalmente, onde o advogado faz perguntas, e a parte responde. E todas as perguntas que eu fazia, ele falava: 'Está indeferido, não vai perguntar nada'. Na época, o cliente até me perguntou o que estava acontecendo, e eu ficava constrangida em responder", afirmou.
Assédio dentro do fórum
Uma outra vítima, funcionária do Tribunal Regional do Trabalho (TRT), contou em entrevista à TV Globo que foi agarrada e beijada à força por Scalercio dentro do gabinete dele no Fórum Trabalhista Ruy Barbosa na capital, em 2018.
"Ele se levantou, veio perto da minha cadeira, se apoiou na minha cadeira e começou a tentar me beijar, me assustei e fui para trás com a cadeira. Mas ele forçava todo o corpo pesado nos meus braços, até que teve uma hora que ele fez menos força, e eu consegui me desvincular. Ele tentava me beijar e falava que 'sabia que eu queria' e, como não tinha câmeras no gabinete, eu podia ficar tranquila", afirmou a vítima.Ela também conta que ficou com marcas nos braços por ter sido pressionada com força pelo juiz. Ela é uma das três denúncias contra Scalercio que são apuradas pelo CNJ e pelo Ministério Público Federal (MPF).
A servidora se lembra de que ele disse: "Sei que você quer". Assustada, ela fala que tentou se livrar do magistrado e chegou a colocar a mão no rosto dele e o empurrou. Ainda segundo a mulher, Scalercio “começou a falar que era juiz, que tinha um monte de mulheres que queriam sair com ele”.
"Ele só falou: ‘Eu sou juiz, tem um monte de mulher que quer sair comigo, e você não tem prova e não vai poder fazer nada’. Na hora eu não falei nada, só teve um momento um pouco antes que eu peguei o celular e tentei filmar, mas ele tirou da minha mão e disse que eu não tinha provas e que eu não poderia fazer nada. Fui fechada naquele gabinete e com certeza, pelo fato de eu ter um cargo inferior, quem sairia punida seria eu”, continuou.A servidora conta que, no dia em que sofreu assédio, estava em um evento no fórum e comentou com Scalercio sobre uma possível troca de lotação no tribunal.
"Só fui perceber todas essas questões depois, voltando nos fatos, percebendo desde o momento como eu entrei e como que foi, também era numa sexta-feira - que é o dia de menor movimentação no Tribunal. Então essas questões eu só fui realmente perceber depois", continuou.
Após sofrer assédio, nervosa, ela decidiu ir embora. No dia seguinte, contou a uma amiga o que aconteceu. Dez dias depois, resolveu mandar mensagem para o juiz dizendo que “houve falta de respeito, que não deu abertura” para ele abordá-la daquele jeito.
O magistrado então “respondeu que não sabia sobre o que ela estava falando”, de acordo com a funcionária.
Na época, ela não o denunciou porque acreditava que “não tinha provas” contra ele, exceto suas próprias palavras. Mas mudou de opinião quando viu outras mulheres acusando o magistrado por assédio sexual nas redes sociais. Procurou então o Me Too Brasil para formalizar sua denúncia contra Scalercio.
"Eu sofria cada vez que ficava sabendo de uma mulher, uma menina assediada. As marcas ficam, não dá para falar que não ficam e, eu sei que cada uma delas também sente. É algo que eu acho que só para quando você tem uma resposta, um acolhimento afetivo porque até agora não foi o que aconteceu, eu espero realmente que tudo seja esclarecido e as vítimas tenham coragem de falar de denunciar", diz a servidora.
Desde então, ela aguarda decisões do Conselho Nacional de Justiça e do Ministério Público Federal. Atualmente faz terapia e tem acompanhamento psicológico por conta do trauma que sofreu, segundo a ONG. "O tribunal arquivou e não abriu procedimento disciplinar, eu esperava que o Tribunal abrisse um procedimento pelo menos por uma apuração melhor do caso e nem isso foi feito".
"Hoje eu confesso que chorei, mas é um choro de alívio por saber que outras pessoas estão denunciando e que eu tenho ciência que só essa voz coletiva é que dará resultado. Eu fico aliviada e uma coisa que eu tenho é consciência tranquila por ter participado dessa denúncia - apesar de ter sido muito custosa - só assim eu consigo dormir com a consciência tranquila", afirmou.
Segundo a defesa de uma das três mulheres que decidiram formalizar na Justiça as denúncias de assédio sexual contra o magistrado, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) ainda não marcou uma data para analisar as acusações contra Scalercio.
"Com novas denúncias de assédio, a expectativa é que a Corregedoria do CNJ faça novas diligências para melhor instruir o procedimento, antes de novamente pautá-lo para decisão do plenário do CNJ, com elementos mais robustos para uma abertura de processo disciplinar", disse ao g1 o advogado José Lúcio Munhoz.
De acordo com ele, o CNJ irá decidir se abre um Procedimento Administrativo Disciplinar (PAD) contra o juiz ou se arquiva o caso, assim como já havia sido feito antes pelo TRT.
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