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Veja erros em questões simples de exame nacional de cursos de Medicina, que teve 30% de reprovação

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Mas de 30% dos cursos de medicina do país tiveram desempenho insuficiente no Enamed, exame nacional aplicado a estudantes do último ano, e erraram questões básicas do atendimento médico, como diagnóstico de dengue, dor de cabeça e prescrição de medicamentos.

O Fantástico teve acesso às respostas da prova e mostra erros em questões simples do dia a dia médico, que ajudam a explicar o desempenho e preocupam quem depende desse atendimento.

Não é preciso ser médico para saber como funciona um termômetro. A função do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica, o Enamed, é mais ou menos essa: medir a “temperatura” de 351 cursos de medicina no Brasil.

Mais de 39 mil alunos do último ano fizeram a prova. O resultado mostra que mais de 30% dos cursos foram reprovados.

Quem fala sobre os sintomas de um quadro mais grave são os próprios estudantes.

"Vou ter uma aula de AVC. Eu gostaria de ter essa aula com o neurologista, e muitas vezes acaba não sendo com o respectivo médico", diz o estudante de medicina Victor Miranda.

O "Fantástico" teve acesso com exclusividade a um relatório do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), responsável pela aplicação do exame, sobre o desempenho dos alunos em questões consideradas básicas para um médico.

Veja alguns dos erros cometidos pelos quase 13 mil alunos reprovados, que acertaram menos de 60% da prova.

Uma das questões, considerada fácil pelo Inep, perguntava o que o médico deve fazer diante de sintomas graves de dengue, como febre, dores intensas e vômitos fora de controle. 66% dos estudantes erraram a resposta.

"Dengue é uma questão muito comum no nosso país", diz o presidente do Sindicato dos Médicos do Rio de Janeiro, Alexandre Telles.

"Isso pode significar você enviar para casa, com tratamento inadequado, um paciente que pode evoluir mal, por exemplo, para uma dengue hemorrágica, num caso grave."

Outra questão tratava de dor de cabeça. O enunciado descrevia uma mulher de 55 anos, sem histórico de doenças crônicas, com dor persistente dos dois lados da cabeça, alterações da visão e cansaço. A resposta correta era pedir um exame de sangue simples para identificar uma possível inflamação nos vasos sanguíneos.

Entre os reprovados, 65% erraram a questão.

"Surpreende, porque se o estudante de medicina, que daqui a pouco vai ser médico, não sabe manejar uma dor de cabeça, reconhecer sinais de gravidade e sinais de alerta, isso é muito preocupante", afirma Telles.

O "Fantástico" procurou alunos de algumas faculdades que receberam notas 1 e 2 na avaliação do Enamed. Veja a lista completa.

Segundo o Ministério da Educação, algumas dessas instituições vão sofrer sanções, como a proibição de matricular novos alunos. Outras terão de reduzir o número de vagas, e todas passarão por processos administrativos para corrigir problemas pedagógicos e estruturais.

"O que acontece com a minha faculdade acontece com várias faculdades privadas ao longo do Brasil, porque eu acho que é também uma questão da mercantilização da medicina, a medicina virar um sinônimo de lucro", afirma Victor Miranda.

Ele cursa o último semestre de medicina na Universidade Cidade de São Paulo, a Unicid. É bolsista do ProUni, tirou nota 8,2 no Enamed — acima da média —, mas a faculdade recebeu nota 2.

Para Victor, a falta de um hospital-escola teve impacto negativo na formação. Ele relata que, em estágios feitos em unidades de saúde superlotadas de alunos, não teve oportunidade de dominar procedimentos básicos.

A Unicid afirmou, em nota, que tem um longo histórico de excelência e que, em avaliação do curso com visita in loco, recebeu nota 5.

O Enamed não tem prova prática. Segundo o Ministério da Educação, no entanto, o exame cobra conhecimentos que devem ser dominados por quem já atendeu pacientes, como a prescrição de medicamentos.

É o caso de uma questão sobre a doença de Parkinson, que exigia reconhecer sintomas e identificar os medicamentos indicados para o tratamento. 56% por cento erraram os dois remédios que deveriam ser oferecidos à paciente.

Um aluno de uma universidade reprovada no Rio de Janeiro, que pediu para não ser identificado por medo de retaliação, contou que colegas ficaram revoltados quando uma professora de patologia errou a prescrição de um medicamento em sala de aula.

Leonardo Celestino paga quase R$ 12 mil de mensalidade na Faculdade de Medicina Estácio de Sá, em Angra dos Reis, instituição com nota 1, a mais baixa do Rio de Janeiro. Como representante de turma, ele relata que os colegas fazem sacrifícios para estudar em um curso tão caro e reclama que muitos professores dão várias disciplinas ao mesmo tempo e nem sempre são especialistas no conteúdo.

"Eu acho que falta investimento da faculdade para o corpo docente, para que eles se sintam mais valorizados. Isso impacta, obviamente, no desempenho deles como professores", diz Leona

Em nota, a Faculdade Estácio de Sá declarou que, isoladamente, o Enamed não é capaz de refletir a qualidade do ensino oferecido e que, no conceito do curso, após avaliação minuciosa das instalações, recebeu nota 4.

O presidente do Conselho Federal de Medicina, José Hiran Gallo, afirma que a entidade avalia medidas para impedir que estudantes de faculdades reprovadas no Enamed possam atuar profissionalmente. Ele defende a aprovação de um projeto de lei em tramitação no Congresso que cria um exame obrigatório para a obtenção do registro profissional após a formatura.

"O Conselho Federal de Medicina está atento, é um órgão de defesa da sociedade e nós defendemos o exame de proficiência, o Profimed, que com certeza vai ser aprovado agora em fevereiro no Senado Federal", afirma Gallo.

Já o diretor do sindicato que representa as universidades privadas contesta os resultados do Enamed.

"O Enamed é um importante instrumento de diagnóstico, mas ele não é sozinho o instrumento que avalia todas as instituições. O sistema de avaliação é muito mais complexo do que isso. Ele envolve avaliações presenciais, no ato de autorização, durante o curso. Envolve a avaliação do corpo docente e da estrutura", diz Rodrigo Capelato.

"Dizer que, numa prova, 13 mil não estão aptos me parece um exagero."

 

 

 

 

 

 

Fonte

G1
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